26 de fevereiro de 2013

Tratado sobre a saudade

Toda a casa dorme. Mas ruídos diversos rondam o meu quarto. Caminhão passando na rua, chuva, a madeira da janela estalando. Durmo. Entro no sono por querer, controlando o meu dormir, afasto sonhos, me recuso. O sono é meu esquecimento, meu entorpecente. O telefone toca avisando das minhas obrigações de mãe no meio da madrugada. Apaguei o toque de despertador que tinha a voz dele. É de tarde, de noite ou de manhã? Tudo se reduz a essa tristeza, que faz os dias serem longos, faz o tempo parar até não ter mais sentido.

Às vezes o sono me abandona e eu finjo que durmo. Como se minha vó viesse me acordar para o trabalho.

Às vezes acordo e estico o braço, procurando. O sono apaga todas as diferenças: passado e presente, fim e começo. Não tenho mais vaidade, nem mais com o que me preocupar. Hoje de tarde vi minha cara no espelho: estou gorda e a pele amarelada como um pergaminho velho, tenho olheiras e o cabelo embaraçado. Pareço morta. Não quero nada.

Vic semi-acordado coloca as mãozinhas sob o meu rosto e as lagrimas quase escorrem dos meus olhos. Passo o braço em volta dele, coloco o queixo na sua testa. Ele dorme de novo.

Vic tem cílios longos como eu, a boca parece um coração, a pele branca como neve. Me mexo e ele se assusta, agarrando meu braço com força. Tem cheiro de talco e um perfume que boticário nenhum conseguiria reproduzir. Beijo a sua cabeça e ele dorme.

Mais tarde (ou cedo) tenho vontade de escrever uma carta. Levanto e escrevo (e reproduzo pra vocês agora, pois não posso colocar no correio).

"Não sei por quanto tempo mais posso continuar com isso. Sei que você sabe. Mas sabe também que se eu tivesse tentado um pouco mais, se eu tivesse podido continuar mesmo do jeito péssimo que estava, eu teria agarrado cada segundo. Quero dizer de novo que te amo. Você foi o fio no labirinto, meu guarda-chuvas, a única coisa verdadeira e confiável nessa minha vida estranha (até a chegada do Vic). 

Odeio pensar em você. Quero me libertar. Quero colocar você bem no fundo do meu coração e depois sair pelo mundo, ir viver. Estou cansada de hibernar.

Cada minuto da minha vida agora é marcado pela sua ausência. Cada ação é desprovida de dimensão  porque você não está aqui pra servir de comparação. Agora eu sei que a ausência pode ser presente como uma cãibra, como um corvo.

Mas eu espero, tenho uma visão de nós dois caminhando no sol, não vejo isso com meus olhos desejosos, mas sim com a minha imaginação, que te desenha, e espero que essa visão se concretize, afinal. Vamos nos ver de novo, e até lá vou viver plenamente nesse meu mundo, que é muito lindo.

Está escuro agora e estou muito cansada. Te amo, sempre. O Tempo não é nada"

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